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Archive for janeiro \05\UTC 2008

Gabriela Camerotti

– Não, Maria. Hoje você vai dormir na sua caminha, ok?
A garota soluçou e abaixou a cabeça. A luz do abajur iluminou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
– Maria, olhe pra mim – disse Clara. – Não tem nada no seu quarto. Já procurei debaixo da cama, dentro do armário, no banheiro…
– Mas não olhou atrás da cortina – interrompeu a menina, soluçando.
– Está bem. Se eu olhar atrás da cortina, a senhorita dorme na própria cama?
– Sim…
Clara calçou os chinelos e segurou a mão de Maria, estava gelada. As duas saíram para o longo corredor. Os grandes quadros nas paredes pareciam vigiá-las. Estavam por toda parte.
– Essa casa é mal-assombrada – falou Maria.
– Por que acha isso? – perguntou Clara, virando à direita para um novo longo corredor.
– Os quadros conversam comigo, mamãe. Quando eu ando aqui sozinha, eles perguntam meu nome.
– E você responde?
– Não… Mas isso me dá arrepios.
– Quando eu tinha a sua idade também pensava ouvir vozes. É uma coisa que a nossa cabeça cria para não nos sentirmos solitárias. Não deve sentir medo da sua imaginação.
As duas pararam em frente a uma porta no fim do corredor.
– Por que eu tenho que dormir tão longe do seu quarto? – disse Maria.
– Porque já é uma mocinha e são os únicos quartos da casa.
– Pra que serve uma casa do tamanho de um quarteirão que só tem dois quartos?
Clara abriu a porta e as duas entraram. O quarto não era nem um pouco infantil. Havia pinturas surreais por todos os cantos, o guarda-roupa era de mogno, enorme. As cortinas tinham uma aparência estranha, como se fossem de madeira. A cama rosa de Maria, com edredons ilustrados com flores, não se encaixava no resto do quarto. Tudo ali tinha um ar antigo. Maria soluçou mais uma vez.
– Por favor, mamãe. Eu não quero dormir aqui.
– Nada disso. Vamos cumprir o trato… – disse Clara, abrindo as cortinas e balançando-as. – Viu, minha filha? Não tem nada aqui.
– É porque é invisível – falou Maria.
– Já chega – Clara encaminhou a menina para a cama. – Você já viu que não tem nada aqui. Que tal descansar agora?
– Mas e a coisa, mãe? Ela não pára de falar comigo.
– O que eu disse sobre a sua imaginação? Não tenha medo dela, ela faz parte de você.
A mãe beijou a filha e saiu, fechando a porta. Maria ficou olhando a janela, esperando algo acontecer.
– Ela já foi? – perguntou uma voz aguda vinda de debaixo da cama. – Não quero que ela me veja.
Maria puxou o edredom para cima da cabeça e fechou os olhos, tremendo.
– Não quer falar comigo? Eu só queria conversar.
– Vá embora… – sussurrou a menina. – Eu quero dormir.
– Está frio lá fora… Posso ficar aqui, quietinha?
A menina abaixou o edredom e abriu os olhos lentamente. Não havia nada ali. Seu corpo tremia, não queria fazer aquilo.
– É só a minha imaginação… – disse baixinho. – Não preciso ter medo de você.
Ela pulou para o chão e olhou debaixo da cama. Estava claro, pois a janela permanecia aberta. Ela pôde ver uma boneca de porcelana de cabelos marrons e cacheados, usando um vestido que seria branco se não fosse a poeira do chão. Maria suspirou aliviada e pegou a boneca. Tirou o excesso de sujeira do brinquedo e pulou de volta para a cama.
Ficou brincando com a boneca por algum tempo. O sono foi chegando, as pálpebras foram se deixando cair. Maria dormiu tranqüila abraçada a um retrato de madeira, sujo e rasgado. Retrato de uma menina de vestido branco e cabelos cacheados, com um sorriso no rosto. Parecia feliz em estar ali ou, simplesmente, sentia o forte abraço da menina.

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