Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Poesias’ Category

O Ilusório no Blogger

Por questões técnicas mudei o’ Ilusório para o Blogger.
O novo endereço é:
http://oilusorio.blogspot.com

Será atualizado semanalmente.  Espero sua visita!

Anúncios

Read Full Post »

Gabriela Camerotti

– Não, Maria. Hoje você vai dormir na sua caminha, ok?
A garota soluçou e abaixou a cabeça. A luz do abajur iluminou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
– Maria, olhe pra mim – disse Clara. – Não tem nada no seu quarto. Já procurei debaixo da cama, dentro do armário, no banheiro…
– Mas não olhou atrás da cortina – interrompeu a menina, soluçando.
– Está bem. Se eu olhar atrás da cortina, a senhorita dorme na própria cama?
– Sim…
Clara calçou os chinelos e segurou a mão de Maria, estava gelada. As duas saíram para o longo corredor. Os grandes quadros nas paredes pareciam vigiá-las. Estavam por toda parte.
– Essa casa é mal-assombrada – falou Maria.
– Por que acha isso? – perguntou Clara, virando à direita para um novo longo corredor.
– Os quadros conversam comigo, mamãe. Quando eu ando aqui sozinha, eles perguntam meu nome.
– E você responde?
– Não… Mas isso me dá arrepios.
– Quando eu tinha a sua idade também pensava ouvir vozes. É uma coisa que a nossa cabeça cria para não nos sentirmos solitárias. Não deve sentir medo da sua imaginação.
As duas pararam em frente a uma porta no fim do corredor.
– Por que eu tenho que dormir tão longe do seu quarto? – disse Maria.
– Porque já é uma mocinha e são os únicos quartos da casa.
– Pra que serve uma casa do tamanho de um quarteirão que só tem dois quartos?
Clara abriu a porta e as duas entraram. O quarto não era nem um pouco infantil. Havia pinturas surreais por todos os cantos, o guarda-roupa era de mogno, enorme. As cortinas tinham uma aparência estranha, como se fossem de madeira. A cama rosa de Maria, com edredons ilustrados com flores, não se encaixava no resto do quarto. Tudo ali tinha um ar antigo. Maria soluçou mais uma vez.
– Por favor, mamãe. Eu não quero dormir aqui.
– Nada disso. Vamos cumprir o trato… – disse Clara, abrindo as cortinas e balançando-as. – Viu, minha filha? Não tem nada aqui.
– É porque é invisível – falou Maria.
– Já chega – Clara encaminhou a menina para a cama. – Você já viu que não tem nada aqui. Que tal descansar agora?
– Mas e a coisa, mãe? Ela não pára de falar comigo.
– O que eu disse sobre a sua imaginação? Não tenha medo dela, ela faz parte de você.
A mãe beijou a filha e saiu, fechando a porta. Maria ficou olhando a janela, esperando algo acontecer.
– Ela já foi? – perguntou uma voz aguda vinda de debaixo da cama. – Não quero que ela me veja.
Maria puxou o edredom para cima da cabeça e fechou os olhos, tremendo.
– Não quer falar comigo? Eu só queria conversar.
– Vá embora… – sussurrou a menina. – Eu quero dormir.
– Está frio lá fora… Posso ficar aqui, quietinha?
A menina abaixou o edredom e abriu os olhos lentamente. Não havia nada ali. Seu corpo tremia, não queria fazer aquilo.
– É só a minha imaginação… – disse baixinho. – Não preciso ter medo de você.
Ela pulou para o chão e olhou debaixo da cama. Estava claro, pois a janela permanecia aberta. Ela pôde ver uma boneca de porcelana de cabelos marrons e cacheados, usando um vestido que seria branco se não fosse a poeira do chão. Maria suspirou aliviada e pegou a boneca. Tirou o excesso de sujeira do brinquedo e pulou de volta para a cama.
Ficou brincando com a boneca por algum tempo. O sono foi chegando, as pálpebras foram se deixando cair. Maria dormiu tranqüila abraçada a um retrato de madeira, sujo e rasgado. Retrato de uma menina de vestido branco e cabelos cacheados, com um sorriso no rosto. Parecia feliz em estar ali ou, simplesmente, sentia o forte abraço da menina.

Read Full Post »

Decrescente

Decrescente

Um sorriso guarda segredos
Que nem todos querem ver.

Nesse pequeno e simples gesto
A alma se revela
Transborda em sentidos
Espalhando a todo canto
Um toque especial
Uma doçura magistral
Que se dispersa pelo ar
Construindo emoções
Cativando corações
Lamentando o simples fato
Da existência de alguém
Que na tristeza dominante
Esquece da alegria
Esquece da magia
E se torna alguém distante e infeliz
Alguém que simplesmente
Não consegue mais sorrir.

Alcy Filho 

Imagem: Branca Mattos

Read Full Post »

À noite

Exposição do Imperial War Museum, em Londres.

Desde pequeno vejo monstros
Perseguindo e gritando
Enchendo de terror a minha noite
Invadindo os meus sonhos.

Não importa o que eu faça
Eles continuam lá
Depois da esquina, atrás da porta,
Esperando eu chegar.

Não é sempre que eu os vejo
Nem sempre aparecem
Só me pegam desprevenido
Então o pior acontece.

E de manhã, quando eu acordo,
Dou um pulo de alegria
Fico satisfeito, pois é dia,
E o terror se escondeu.

Escondeu-se no escuro
No fundo da minha mente
De onde às vezes ele sai
Para perseguir-me novamente.

Read Full Post »

Mundo irreal

Daíma olhou para o lado e fechou os olhos novamente. Não queria acordar. O sons da floresta queriam levá-lo de novo para seus sonhos, para seus delírios. Mas ele precisava acordar. Era dia de mudança. Seu grupo iria deixar o terreno e desbravar a mata para encontrar um novo lar.
O sol da manhã ultrapassou as folhas de bananeira, focando seus olhos negros. As crianças brincavam ali perto imitando sons de bichos. Daíma se levantou e foi ao rio se purificar. Era preciso renovar as forças para o trabalho. O Rio Caminho, como o batizaram, emprestava suas águas para homens e mulheres se lavarem. Eram seis adultos e cinco crianças. Todos pareciam ter acordado há pouco tempo.
As mulheres se uniram para sair pela mata, colhendo o que sobrou de frutos para a viagem. Os homens se dirigiram às casas e começaram a desmontá-las. Ao passo de uma hora todos estavam prontos para seguir pela mata.
Não havia pais nem mães. As crianças brincavam com todos, sem se apegar a ninguém em especial. Mas elas não se atreviam a se disperçar dos adultos. Sabiam que as ávores escondem perigos atrás de cada folha.
Sempre um do grupo ficava responsável por ir na frente. Hoje este cargo era de Daíma. Ele ia quebrando galhos e afastando obstáculos, sempre atento à perigos, como cobras e onças. Mas o que ele mais temia encontrar era um outro grupo. Em toda sua vida, ele nunca conheceu outras pessoas, apenas seu grupo. E a tradição deles era de que o mundo era suas casas. Quando deixavam um lugar, este deixava de existir. Eles eram os únicos habitantes de seu mundo.
O caminho estava difícil. A mata fechada revelava plantas cheias de espinhos, difíceis de cortar. Daíma olhava atento para os lados, esperando sempre encontrar um animal ou outra clareira desabitada. E foi isto que ele encontrou. A clareia tinha uma fogueira de pedras ainda com sinais de fumaça e algumas folhas grandes cobrindo o chão. Daíma ficou paralizado ao ver um estranho recipiente. Parecia um cesto de material estranho e áspero. Resolveu olhar dentro. Encontrou instrumentos de corte, pós coloridos e outros tantos objetos que não conhecia. Ele enfiou a mão mais adentro e pegou um pedaço de metal brilhoso, que parecia retratar as copas das árvores. Daíma virou o objeto e contemplou sua imagem refletida nele. Assustado, deu um pulo para trás, deixando o espelho cair no chão.
Ao levantar, seus olhos se depararam com uma estranha visão. Parecia um sonho. Uma mulher com vestes desconhecidas estava parada ao lado de uma árvore, olhando para ele. Lentamente ela se aproximou do cesto e fechou-o, sem retirar o olhar de Daíma. Depois começou a recuar até o fim da clareira. Sem esperar, a mulher se virou e deixou Daíma sozinho.
O vento acordou-o de seu devaneio, trazendo de volta o barulho da mata e do grupo chegando.
Daíma não contou o que viu. Não falou sobre a mulher à ninguém. A visão ficaria para trás, como todos os lares que havia abadonado.
Era hora de construir um novo mundo.

Read Full Post »

Preito à existência

Preito à existência

Às vezes penso como seria…

A vida sem problemas
Sem brigas e contendas
Sem dúvidas, só certezas,
Sem ódio, puro amor,
Sem espinhos, apenas flor,
Sem raios, plena chuva,
Sem perdas, só vitórias,
Sem violência, somente paz.

Então me vejo neste mundo
Criado por Deus, dado ao homem,
E me sinto grato pela vida
Pelo dom que o Pai me deu
De consertar o que é errado
Ensinar o que é certo
E sonhar com o perfeito.

Imagem: Murilo Ferraz Franco

Read Full Post »

Apelo cego

Apelo cego

Estou me afogando

Não me acho

Este mar é imenso, gélido.

Fecho-me diante das barreiras

E afundo no pensar, imaginar,

Não consigo ultrapassar

Nessas correntes sem fim

Estão atrás de mim

Posso sentir o fluido

Perseguindo meus sentidos

Calmo e agitado, nos confins do início

Correndo e fugindo do desconhecido

Batizo de estranho mar das impurezas

Que é meu amigo nessas horas

Aonde transfiro meu ódio

No tempo e no espaço

Que me cega e leva a perdição

Mas o muro é abalado

Sei que agora é o momento

Passo pela fenda

Vem ajuda da superfície

E encontro meu socorro

Do alto

E o perseguidor desiste

Não me afogo mais

Não corro mais

Estou a salvo da angustia

Longe dos becos escuros.

Diante do gesto simples e perfeito

Estranho ao olhar passivo

Do planeta de ídolos

Cansado de heróis

Pedindo por ajuda

Num coro de desespero

Que escutamos, não sentimos,

Estamos cegos, perdidos,

Afogados.

Read Full Post »

Older Posts »